De acordo com o Diretório Acadêmico Nilo Cairo (DANC), um grupo criminoso teria organizado uma lista de estudantes alvo de ataques e oferecido valores para quem estuprasse as alunas. Criminosos ainda não foram identificados e aulas seguem normalmente.
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A Nova Democracia --------
Na última semana, o Diretório Acadêmico Nilo Cairo (DANC) de Medicina da Universidade Federal do Paraná (UFPR) publicou uma denúncia envolvendo a tentativa de ataque a uma estudante do curso. Em nota circulada pela representação estudantil, a estudante vem sendo perseguida por um grupo criminoso que organiza apostas em dinheiro e premia quem conseguir estuprar alunas listadas como alvos do grupo, com fortes indícios de que esse grupo seja composto por colegas da vítima. A referida estudante conseguiu evitar o ataque e já foi acolhida por uma equipe, mas o Diretório alerta a todos para permanecerem vigilantes e denunciarem qualquer conduta suspeita.
Ainda de acordo com a nota publicado, o DANC declarou: “A polícia já está investigando, autoridades superiores da polícia militar já estão envolvidas e a vítima já está recebendo todo o apoio possível do diretório e de outras instituições, mas, por ora, orientamos que todas as alunas tomem cuidado ao circular nas redondezas do poli, da reitoria, e nas festas, pois a aluna ameaçada foi perseguida em todos esses lugares. A polícia recomendou que informássemos o máximo de pessoas possível sobre essa preocupante situação”.
De acordo com uma estudante que pediu para não ser identificada, é grande a chance desse ataque ter sido orquestrado por seus próprios colegas. “Existe um boato já faz um tempo, de que existe uma lista das alunas mais estupráveis da nossa turma”, relata ao Comitê de Apoio ao AND – Curitiba e Região. “Agora com essa história de que existem um valor para cada estupro, a gente não consegue não pensar que as duas coisas não estão relacionadas”. A estudante ainda relata que circulam indício de que quanto mais violento, maior seria o valor pago ao estuprador.
Até o momento, a Reitoria da UFPR não se pronunciou ou divulgou medidas que garantam a segurança das estudantes, afastem estudantes suspeitos ou acolham vítimas de violência sexual que sintam medo em voltar a frequentar aulas. As aulas continuam acontecendo normalmente, apesar do risco iminente a todas as alunas do curso.
Estudantes de mobilizam para garantir segurança contra ataques
Para enfrentar a situação, alunas da Medicina e outros cursos decidiram se organizar. “Organizamos um grupo para ninguém andar sozinha”, relata outra estudante que prefere não ser identificada. “Vamos acompanhar sempre o trajeto de viagem umas das outras, pegar o intercampi juntas. Não tem condição da gente andar sozinha nesse momento. Ninguém sabe se também é um alvo, porque tem uma chance enorme desses estupradores estarem sentados nas mesmas aulas que nós. A gente já começou a organizar algumas oficinas de autodefesa, porque caso alguém ataque a gente, a gente vai revidar e se proteger”.
De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, o Brasil registrou 87.545 vítimas de estupro e estupro de vulnerável, o maior número da série histórica iniciada em 2011. Isso equivale a aproximadamente 1 caso a cada 6 minutos no país. Os números oficiais, no entanto, são grandemente subestimados. De acordo com o IPEA, estima-se cerca de 822 mil estupros por ano no Brasil, considerando vitimização não registrada, o que significa que só uma fração chega à polícia ou aos serviços de saúde.
Os dados demonstram que a situação denunciada pelos estudantes de Medicina da UFPR são uma tendência de uma sociedade que impõe sobre as mulheres a condição de propriedade, sendo a violência sexual a expressão da posse sobre o corpo feminino e expropriação do direito mais fundamental do ser humano, a autonomia sobre seu próprio ser.
Em uma histórica entrevista ao AND, a fundadora do Movimento Feminino Popular, Sandra Lima (1955-2017), declarou: “Há na sociedade um pensamento de que o homem pode utilizar do corpo da mulher, queira a mulher ou não: é uma relação de propriedade. E isso não é específico do homem. Isso é a materialização da ideologia que domina nessa sociedade. A ideologia da burguesia impõe que a mulher é cidadã de segunda categoria e deve ser tratada como tal. As mulheres proletárias, por uma condição objetiva — evidente — são o elo mais débil [com relação à mulher burguesa e exploradora] e sofrem integralmente da opressão sexual”.
Nessa mesma entrevista, a histórica dirigente do movimento feminino alertou que as mulheres e o povo não devem ter ilusões com a polícia e a justiça burguesa. “A história mostra que a polícia estuprou prisioneiras políticas no Brasil e em todo o mundo, prisioneiras ‘comuns’ também dão a todo o momento essa queixa. (…) A gente vê que nunca houve proteção à mulher vinda desse velho Estado, muito ao contrário. No código penal de 1988 só era estupro se houvesse penetração e presença de esperma; se a mulher gritasse e o estuprador tampasse sua respiração e ela morresse, não era considerado crime de homicídio, senão apenas de estupro”.
Para combater este problema, justificado de mil e uma formas por essa velha sociedade, dois caminhos antagônicos se apresentam: a alimentação de ilusões neste sistema que mantém as bases de opressão das mulheres, de um lado, ou a luta ativa por uma verdadeira democracia e uma nova sociedade, que rompa séculos de opressão feminina, de outro.
