A história que a grande mídia não quer organizar para você.
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Como a grande mídia tenta apagar a origem de um crime que tem nome, endereço e partido.
Existe uma arte refinada no Brasil que não se ensina em faculdades de jornalismo: a arte de dizer a verdade pela metade. Não é mentira — isso seria grosseiro demais. É o recorte cirúrgico, a omissão elegante, o enquadramento milimétrico que, ao destacar apenas o que convém, transforma o culpado em vítima e o investigador em suspeito.
O caso do Banco Master está sendo construído assim, tijolo por tijolo, ao vivo, no horário nobre.
Vamos aos fatos — porque os fatos, desta vez, são teimosos e inconvenientes.
Em 2019, Daniel Vorcaro adquiriu o Banco Máxima, uma instituição que não era nada — uma casca com um CNPJ. Para transformá-la em Banco Master, precisava de autorização do Banco Central. Essa autorização chegou exatamente com Jair Bolsonaro no Planalto e Roberto Campos Neto na presidência do BC — o mesmo Campos Neto que, depois de sair do cargo, virou vice-chairman do Nubank, empresa que tem a Globo Ventures como sócia.
Alguém deveria perguntar à Globo se ela tem independência para cobrir um escândalo cujo principal guardião regulatório hoje é seu parceiro de negócios.
Mas não se pergunte. Não cabe.
Entre 2019 e 2024, o patrimônio líquido do Master saltou de R$ 200 milhões para R$ 4,7 bilhões. A carteira de crédito passou de R$ 1,4 bilhão para R$ 40 bilhões. Vorcaro foi ao Banco Central 24 vezes durante a gestão de Campos Neto. Vinte e quatro.
Para se ter ideia do nível de intimidade institucional, há funcionários que visitam o dentista com menos regularidade. Dois diretores do BC, descobriu-se depois, recebiam 'mesada' de Vorcaro para trabalhar a seu favor por dentro da autarquia — nomeados durante essa mesma gestão.
O motor do crescimento foram os aposentados do INSS. Paulo Guedes, Onix Lorenzoni e João Roma ampliaram a margem do consignado. Em 2022, às vésperas da eleição, liberaram o consignado até para quem recebia o Auxílio Brasil. Quanto mais dívida o povo acumulava, mais o banco crescia. Um modelo de negócios que mistura criatividade financeira com desprezo pelos mais pobres.
Em 2022, o cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel* — hoje preso, pastor da Igreja Batista da Lagoinha — foi o maior doador individual das campanhas de Bolsonaro (R$ 2 milhões) e de Tarcísio de Freitas (R$ 3 milhões).
O presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, confirmou ainda que o próprio Vorcaro depositou outros R$ 3 milhões diretamente na conta particular de Bolsonaro — o que configura, para quem não foi à escola de direito, crime eleitoral.
A devolução foi generosa. Ibaneis Rocha, governador do Distrito Federal e bolsonarista de carteirinha, autorizou o BRB — banco público — a comprar R$ 12 bilhões em títulos do Master antes da liquidação. O prejuízo pode chegar a R$ 5 bilhões de dinheiro público. Tarcísio de Freitas, o favorito da direita para 2026, governou São Paulo enquanto a EMAE — empresa pública — despejou R$ 160 milhões no Master. Coincidências têm limites. Esse limite foi cruzado há muito tempo.
O senador Ciro Nogueira aparece nos celulares de Vorcaro como 'grande amigo de vida' — e apresentou a chamada 'Emenda Master' no Congresso, proposta que favorecia o banco. Vorcaro celebrou a emenda em mensagem à namorada.
Nikolas Ferreira, o deputado mais votado do Brasil e frequentador da Igreja Lagoinha, fez mais de dez viagens de campanha no jato particular de Vorcaro em 2022. Depois disse que não sabia de quem era o avião. Uma aeronave que pousa e decola com passageiro ilustre, e ninguém sabe de quem é. Milagres acontecem, especialmente na Lagoinha.
E o que fez o governo Lula com tudo isso?
Não renovou o contrato do Master com o INSS. Vetou a compra do BRB. A Polícia Federal abriu inquérito, deflagrou a Operação Compliance Zero, prendeu Vorcaro e seu cunhado. O Banco Central, já sob Gabriel Galípolo, decretou a liquidação extrajudicial.
Em outras palavras: o governo que deveria ser o vilão é o que prendeu os bandidos.
Mas a narrativa que a grande mídia quer construir é outra. É a narrativa do 'escândalo suprapartidário'. A do 'todo mundo é igual'. A que menciona, sempre muito discretamente, que Lula encontrou Vorcaro uma vez — reunião registrada, protocolar, em que o banqueiro reclamou da concentração bancária e o presidente disse que o assunto era técnico e cabia ao BC.
Vorcaro saiu e mandou mensagem à namorada dizendo que a reunião 'foi ótima'. Isso virou manchete. A reunião de Campos Neto com Vorcaro vinte e quatro vezes? Contexto. Detalhe. Nota de rodapé.
Há uma palavra para isso: desonestidade intelectual. Praticada com terno e gravata, em estúdio climatizado, com fundo musical e encerramento às 20h30.
Estamos em ano eleitoral. O script é conhecido. Primeiro criam o ruído. Depois repetem o ruído. Depois o ruído vira narrativa. Depois a narrativa vira senso comum. E no final, o cidadão que não tem tempo de conferir tudo — que trabalha, cuida dos filhos, paga as contas — sai com a impressão vaga de que 'todo mundo rouba igual'.
Não rouba. Não é igual. E os dados estão aí para quem quiser ver.
O Banco Master nasceu no governo Bolsonaro, cresceu no governo Bolsonaro, foi bancado politicamente por bolsonaristas, financiou campanhas bolsonaristas e foi protegido por um Banco Central bolsonarista. Foi o governo Lula que fechou, que prendeu, que investigou.
Se isso é suprapartidário, então Watergate foi um assunto de condomínio.
O Brasil tem memória curta porque alguns trabalham duro para apagá-la. A nossa parte é lembrar — e não deixar esquecer."
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Por Carlito de Souza,
Via João Lopes
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