Como surgiu o cristofascismo no Brasil?

por Claudio Daniel O OVO DA SERPENTE Após a queda do regime militar e o início da redemocratizaçāo do país, em 1989, foram realizadas importantes mudanças, como a promulgação de uma nova Constituiçāo, a adoção de um novo Código Civil, o fim das leis autoritárias da ditadura, a legalização das centrais sindicais e dos Partidos Comunistas (PCB e PCdoB). Houve também o avanço das lutas das mulheres, negros, indígenas, camponeses e outros setores marginalizados durante séculos pelos seus direitos. A Teologia da Libertaçāo inspirava as Comunidades Eclesiais de Base e o Partido dos Trabalhadores conquistava cada vez mais votos, a cada eleiçāo. Todas essas mudanças incomodaram profundamente os banqueiros, os industriais e os grandes proprietários de terras, que organizaram milícias armadas no campo, como a União Democrática Ruralista (a UDR), liderada por Ronaldo Caiado, para assassinar trabalhadores sem terras, muitas vezes com apoio da Polícia Militar. A extrema-direita contava com um terço do eleitorado, mas não animava a maioria da populaçāo. O neofascismo começou a crescer no Brasil a partir da perseguiçāo da Teologia da Libertação pelo Vaticano, na época do papa João Paulo II, que conseguiu afastar a Igreja Católica dos mais pobres. O vazio deixado pela TL foi rapidamente ocupado por seitas evangélicas recentes, criadas a partir da década de 1990, que foram até as periferias e favelas, organizando os mais pobres em seus cultos, com um discurso moralista e conservador -- que hoje é chamado de Cristofascismo. Ao mesmo tempo, a Internet avançou no país, com redes sociais como o antigo Orkut, o Facebook e o Instagram, que deram voz à extrema-direita, que soube usar esses novos meios de comunicaçāo para a propagaçāo de fake news e toda sorte de preconceitos e irracionalismos. Foram criadas comunidades de discurso claramente fascista, como o Rebeldes On Line, que logo angariaram milhões de seguidores. Surgiram influenciadores digitais que expandiram esse discurso no rádio e nas mídias sociais, como o ex-fumante inveterado Olavo de Carvalho. Todo o discurso dos novos direitistas era (e é) bastante simplório: foge de qualquer embasamento científico (muitos acreditam que a Terra é plana), histórico, ético ou mesmo religioso (o discurso de ódio predomina nos "sermões" de falsos "bispos", "pastores" e "freis"). Um conteúdo ideológico foi sendo construído nas últimas décadas, a partir de pautas como a condenaçāo do aborto, do feminismo, da diversidade sexual, dos programas sociais, como o Bolsa Família, dos movimentos sociais, como o MST, e da esquerda em geral (e do PT em particular, visto como o inimigo número 1). Pessoas de formaçāo familiar conservadora, e ainda os ingênuos, ou sem formaçāo política, desinformados, de baixa escolaridade, com problemas de natureza psiquiátrica ou simplesmente solitários que se viram acolhidos pelas seitas logo formaram um contingente de milhões de brasileiros, e hoje constituem quase metade do país. Uma bem-sucedida lavagem cerebral fez com que o número de evangélicos (e por extensão do eleitorado conservador) hoje represente entre 30% e 40% dos brasileiros, e o número nāo para de crescer. Paralelo a isso, a comunicaçāo dos governos petistas e das esquerdas mostra-se ineficiente, ou mesmo quase inexistente. Os partidos de esquerda hegemônicos abandonaram o trabalho de base, tornando-se máquinas burocráticas voltadas apenas às eleições. Nesse quadro, faltava apenas alguém que canalizasse a simpatia da multidão de zumbis, prontos a fazer de tudo por uma "causa" completamente irracional e fantasiosa.
Faltava um líder. Um símbolo. Um "mito". Entāo, os holofotes apresentaram um ex-capitāo do exército, aposentado por indisciplina, deputado há décadas, sem ter nenhum projeto aprovado. Um homem grosseiro, inculto, preconceituoso, corrupto, violento, defensor da ditadura militar e da tortura. O discurso dele é fácil de entendimento, é simplista mesmo, acessível a qualquer um. Ele nāo é intelectual, tem um senso de humor duvidoso, faz bravatas, enfim, é um líder com o qual as pessoas comuns podem se identificar. Ele fala em Deus, Pátria e Família, se apropria da bandeira nacional (colocada ao lado das bandeiras dos Estados Unidos e de "Israel"), dos hinos, mitos e práticas religiosas das seitas evangélicas e recebe patrocínio da grande burguesia -- que sabe exatamente quem é esse novo líder: um imbecil que pode ser útil para destruir a esquerda, as conquistas sociais e colocar em prática o que a classe dominante brasileira realmente deseja: congelar ou mesmo acabar com o salário mínimo e as garantias da CLT, avançar com a precarização do trabalho (o chamado "empreendedorismo"), deter a reforma agrária e a demarcação de terras indígenas e quilombolas, garantir altos lucros para os bancos, cortar os programas sociais, os investimentos públicos em educaçāo e saúde, privatizar todas as empresas estatais, enfim, o neoliberalismo levado às suas últimas consequências. A multidão de seguidores desconhece ou nāo se importa com esse programa, pois ela só enxerga o ódio à esquerda, aos gays, às mulheres trans, ao aborto, enfim, ela só vê a ideologia que aprendeu nas seitas. Essa é a "guerra santa" de uma multidão que já foi capaz de invadir Brasília para depredar edifícios públicos e tentar um golpe de estado, enquanto o seu "mito" estava em lugar seguro nos Estados Unidos. O golpe foi derrotado, golpistas estāo presos -- inclusive o ex-capitāo -- mas o Ovo da Serpente já foi chocado e saíram de dentro muitos filhotes. Um deles será candidato a presidente em outubro, usando os mesmos símbolos, discurso, programa e sobrenome de seu pai.