Vorcaro deve mudar de ideia e negociar nova delação para entregar o que sabe em breve, diz Bertholdo
Advogado analisa situação do dono do Master e diz que mais tempo de prisão deve pressionar o banqueiro para apresentar nova delação premiada
Por: Júlia Motta na Revista Forum
Em entrevista ao Fórum Onze e Meia desta quinta-feira (21), o advogado Roberto Bertholdo analisou o escândalo envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master preso por fraudes financeiras, e a relação com o senador e pré-candidato à presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL) e outros políticos.
Bertholdo analisou a rejeição da delação de Vorcaro pela Polícia Federal (PF) e afirmou que, como as mensagens dos celulares de Vorcaro já forneceram muitas informações, a PF e o Ministério Público desejam ter o complemento dessa conversa, mas que Vorcaro provavelmente ainda segura muitas informações para manter um grupo de pessoas próximas protegido.
“O que ele trouxe de informação, seguramente, não foi suficiente para que a Polícia Federal se sentisse na condição ou na contingência de acolher essa delação”, diz Bertholdo. O advogado pontua, porém, que mais alguns dias ou meses de prisão podem fazer com que o banqueiro mude de ideia e dedica entrega o que sabe.
“Não tenho dúvida, ele sabe muita coisa. Como a gente viu, ele transferiu R$ 61 milhões para o Flávio Bolsonaro a pretexto de um filme, o que potencialmente não é verdadeiro, é algo assim, inverossímil, ou absolutamente inverossímil. E, seguramente, outras entregas de dinheiro, de recursos, de negociatas”, afirma o advogado.
Bertholdo ainda acrescenta que, pelo que pessoas próximas ao banqueiro afirmam, Vorcaro não aguenta muito tempo de prisão, o que corrobora a tese de que ele deve negociar uma nova delação em breve.
“Eu suponho que pelo número de crimes cometidos pelo Vorcaro, ele é uma pessoa que deverá ficar preso por mais de 10 anos em regime fechado. Então, ele vai avaliar, ele tem bons advogados, os advogados dele seguramente vão descrever esse panorama de potencial de pena que ele terá pela frente. E eu não tenho dúvida que, em determinado momento, ele reiniciará uma negociação no sentido de contar”, avalia Bertholdo.
O advogado diz que tem a impressão que Vorcaro acha que ainda tem muita autoridade sob seu controle e, por isso, ainda se acha um “tanto protegido”. “Talvez ele até espere a eleição, e se confirmando a eleição – que irá se confirmar sem dúvida nenhuma com a eleição do presidente Lula – ele verá que o arcabouço de proteção que ele construiu estará sem o poder para protegê-lo. E aí sim ele vai falar”, complementa o advogado.
“Eu não tenho dúvida nenhuma de que o Vorcaro, em determinado momento, irá falar tudo o que sabe – salvo ele tenha medo de ser eliminado na cadeia ou algo parecido”, diz Bertholdo.
O que a delação de Vorcaro pode revelar
Bertholdo também pontuou as contribuições que a delação de Vorcaro podem oferecer, como o verdadeiro destino do dinheiro transferido para o filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
“A conversa do Flávio Bolsonaro com o Vorcaro seguramente foi extraída de um desses elementos de telefone celular ou tablet que foram apreendidos, e fala da transferência de R$ 61 milhões, e não se sabe se houve ou não houve a segunda transferência, que seria de mais R$ 61 milhões. Se sabe da entrega dos R$ 61 milhões, mas não se sabe para onde foi e para onde esse dinheiro foi”, diz Bertholdo.
“Então, para onde esse dinheiro teria ido é algo muito mal contado, porque supostamente esse dinheiro, segundo a versão do Flávio, teria ido para uma produtora, e a produtora disse que não, e aí se verificou que esse dinheiro foi para um fundo de investimento que é gerido pelo advogado do Eduardo Bolsonaro, no Texas, e que também esse dinheiro serviu para a aquisição de uma casa, também no Texas, na mesma cidade onde mora o Eduardo Bolsonaro”, destaca o advogado. “Então, isso é um indício que mostra o caminho de algo que é irregular, mas que não se fecha, que não se conclui o fechamento e que demandará um esforço de busca de prova bastante importante”, acrescenta.
Portanto, o advogado ressalta que Vorcaro pode simplificar a busca da prova. “É ele dizer se o dinheiro realmente foi para um fundo de investimento e não para a produtora, se era mentira a história do filme – que todo mundo percebe que era mentira a história do filme – e [o dinheiro] serviu, por exemplo, para a compra de uma casa para o Eduardo, ou serviu para a compra de determinado bem, ou serviu para pagar alguma conta do Bolsonaro, ou serviu para pagar a conta de algum presidente de partido”, pontua.
“Então, os elementos que eles têm hoje no telefone ainda são periféricos, são subsidiários, e eu acho que falta muita informação que facilitará e que comprovará a utilização desse recurso de forma irregular, seja sobre a forma de lavagem de dinheiro, de evasão de divisas”, afirma Bertholdo.
Outro exemplo citado pelo advogado é o destino do dinheiro da negociação do Banco de Brasília (BRB) com o Master. “Como hoje boa parte da corrupção se dá por via de criptomoeda, a localização da conta para onde foi esse recurso é algo que o Vorcaro poderá contribuir”, diz.
Confira a entrevista completa do advogado Roberto Bertholdo:
https://www.youtube.com/live/HTi0-uG1R10?si=_gva-WeYZVuXu-Nz

